2016
Jun
03

Toca do Pitaco: A “realidade fotográfica” e suas implicações

 

Gostaria de abrir esse texto agradecendo ao convite do amigo Fernando Neisser. É com grande alegria que trago esta colaboração ao Ponderagens.

 

Trato aqui de uma questão crucial em uma sociedade cada vez mais visual: a questão da realidade na fotografia. O tema não é novo ou original, mas é frequentemente negligenciado ou analisado de forma rasa. Se há algo que permanece como uma “verdade” este algo é a suposta objetividade neutra, fria, da fotografia. Afinal, poderia uma máquina mentir? Destaco em especial a questão da imagem jornalística: o fato cru poderia ser manipulado?

 

Henry Peach Robinson, um dos pioneiros da fotografia no século XIX já dizia: “A fotografia é arte porque pode mentir”.

 

Arte, artifício, artificial e artesão derivam da mesma palavra latina: ars, que significa técnica ou habilidade, a capacidade de fazer algo. Fazer é, aqui, o contrário daquilo que é natural. Se é feito é artificial, foi feito para ser, há intenção.

 

Como se dá este fazer?

 

A construção da imagem começa antes do registro de uma cena. A escolha do filme (antigamente) ou da regulagem digital (hoje em dia) já carrega uma intenção. Não enxergamos em preto e branco, mas podemos registrar o mundo assim. Escolha feita, registra-se uma “realidade” que de real já não tem as cores. Realidade estranha essa.

 

Seguimos então para um outro ponto: a escolha da objetiva, popularmente conhecida como lente. Diferentes objetivas abrangem diferentes campos de visão, diferentes amplitudes, o que se chama tecnicamente de distância focal. Ato contínuo, ao escolher o que abranger escolhe-se também o que excluir; o foco no todo exclui o detalhe, o foco no detalhe descontextualiza-o do todo. O contraquadro, aquilo que ficou fora da foto, pode complementar ou até negar a informação transmitida. A escolha da objetiva é uma edição da realidade. O recorte que se faz da foto também.

 

Em tempos de grandes manifestações políticas é fácil perceber o peso dessa escolha: o foco “fechado” no manifestante agressivo gera um tipo de leitura, uma imagem ampla mostra a força do movimento em questão. Para manifestações grandes, imagens amplas; para pequenas, foco fechado em alguns grupos como forma de mostrar união sem mostrar o tamanho reduzido do conjunto.

 

Deixando para trás a máquina enquanto instrumento mecânico e eletrônico e focando em quem a opera, há outros pontos a destacar: quem fotografa está imerso em uma realidade de 360e em um fluxo temporal contínuo. Desta realidade escolhe-se o que fotografar (e toda escolha implica um posicionamento) e também o momento. Boris Kossoy, estudioso da fotografia, trabalha em profundidade esse tema: toda fotografia é um recorte espacial e temporal, carregado de questões políticas, culturais e ideológicas, filtrado por uma série de fatores. A realidade pode ser enquadrada das mais diversas formas. Por esse motivo muitos teóricos da fotografia afirmam que “fazer uma foto” é um termo mais correto do que “tirar uma foto”.

 

Vejamos um exemplo que circula pela internet.

 

fotografia 1

 

Se a imagem for recortada como na primeira parte, temos a sensação de algo como a iminente execução de um prisioneiro ou pelo menos de sua captura sob a ameaça do cano de um fuzil. A imagem tal qual aparece no centro gera outra leitura: o soldado ferido é amparado por dois soldados. Olhando com atenção nota-se inclusive que a arma na verdade pertence a um terceiro soldado do qual se vê apenas parte da mão e que esta arma não está apontada para a cabeça do homem no centro da imagem. Por fim, o terceiro recorte mostra uma cena que lembra a cena do meio, mas o recorte que exclui a arma impede que sequer haja o engano segundo o qual o cano do fuzil estaria apontado para a cabeça do soldado que é amparado. Nos três casos podemos levantar ainda outra questão: a cena ocorreu em um combate? Pela posição do soldado do meio temos esse impressão, já que parece estar caído e sua expressão denota sofrimento. Não poderia ser apenas um acidente em um treinamento? Um soldado que desmaiou talvez devido ao calor, cansaço ou outro fator? Sem uma visão mais ampla é impossível julgar, não há um fundo ou cenário que complete a nossa leitura.

 

Se pensarmos nas imagens veiculadas pela mídia, há ainda o papel fundamental do editor.

 

Vejamos alguns exemplos.

 

Nesta imagem abaixo um pequeno grupo de manifestantes foi fotografado de forma próxima com dizeres que associam diretamente as pessoas críticas ao governo Dilma com o desejo de uma intervenção militar.  Ao isolar do resto da manifestação este pequeno grupo o fotógrafo pode criar uma generalização do todo a partir de uma parte, levando a crer que toda a manifestação pedia ao mesmo tempo a queda do governo e a intervenção militar, ou ainda a primeira através da segunda. A imagem não permite saber o tamanho da manifestação nem avaliar se havia ou não outras demandas e posições.

 

fotografia 2

 

Já nesse caso, dois momentos isolados constroem uma outra narrativa: a da agressividade do militante petista em contraste com pacifismo ou tolerância dos militantes contrários ao governo. Retiradas de seu contexto, imagens podem “provar” o que quer que se queira.

 

fotografia 3

 

Assim sendo, talvez não haja nada mais distante da “realidade crua” do que uma imagem fotográfica.

 

Joan Fontcuberta, pesquisador catalão, é categórico:

 

“Toda fotografia é uma ficção que se apresenta como verdadeira. Contra o que nos inculcaram, contra o que costumamos pensar, a fotografia mente sempre, mente por instinto, mente porque sua natureza não lhe permite fazer outra coisa. Contudo, o importante não é essa mentira inevitável, mas como o fotógrafo a utiliza, a que propósito serve. O importante, em suma, é o controle exercido pelo fotógrafo para impor um sentido ético à sua mentira”.

 

Daniel Pereira Leite é historiador, professor, fotógrafo e membro da equipe do site História Online.

 


 

A Toca do Pitaco é a seção de textos de convidados e convidadas do Ponderagens.

 

As opiniões não necessariamente refletem as do blog.

 

Em geral elas refletem, mas sempre tive vontade de poder escrever este tipo de disclaimer.

 

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1 Comentário em "Boxes, hotéis e os lucros monopolísticos"

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