2016
Mai
27

Cultura do estupro, cifra negra e os homens

A trágica história da menina estuprada por 33 homens no último sábado desencadeou na sociedade um debate tão premente quanto mal compreendido: a necessidade de acabarmos com a cultura do estupro.

 

Muitos de nós, homens, assistiram incrédulos à reação nas redes sociais. Poucos vocalizaram publicamente, por receio de se tornarem alvo de críticas, mas as perguntas estavam lá, mal escondidas nos comentários:

 

Como assim, todo homem é um estuprador em potencial? Eu nunca estuprei, nem estupraria ninguém.

 

Quem falou que há uma “cultura do estupro”, se é um crime considerado grave por todos?

 

Como falar em proteção do estuprador pela sociedade, se todos sabem o destino que se reserva a eles quando entram no sistema penitenciário?

 

Excelente matéria da Superinteressante (julho/2015) explica o que é a tal “cultura do estupro” e como ela reflete na tentativa de tornar invisíveis os casos de violência sexual (http://super.abril.com.br/comportamento/como-silenciamos-o-estupro).

 

Toda instituição já tentou ou tenta “se proteger” em relação a denúncias de violência sexual em sua estrutura: Igrejas, forças armadas, universidades, família, o FMI e a própria ONU.

 

Na criminologia usa-se o conceito de “cifra negra”, entendida como o percentual de casos de um determinado delito que não chegam ao conhecimento público, uma vez que deixam de ser notificados às autoridades pelas vítimas.

 

Todo crime tem uma cifra negra, maior ou menor.

 

Dificilmente alguém se daria ao trabalho de registrar Boletim de Ocorrência se encontrasse seu veículo com a janela quebrada, tendo sido roubados alguns trocados que estava dentro.

 

O motivo: a certeza de que nada poderia ser feito pela Polícia, aliada ao incômodo de se deslocar ao D.P. mais próximo para enfrentar horas de burocracia.

 

Pois bem, no caso do estupro a subnotificação ou cifra negra é uma das mais altas entre todos os delitos.

 

Pesquisas otimistas dizem que apenas 35% dos casos são notificados (National Crime Victimization Survey).

 

Mais próxima da nossa realidade, a pesquisa ‘Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde’, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), sustenta que meros 10% dos estupros viram uma ocorrência policial.

 

Os motivos aqui são múltiplos. A vergonha, talvez o principal, já que o estupro é o único crime em que se julga primeiro a vítima.

 

Com que roupa estava?

 

Que horas era?

 

Estava sozinha?

 

Tinha bebido?

 

Tinha usado drogas?

 

Já havia se relacionado com o estuprador?

 

Nunca tinha “dado mole” para ele?

 

Resistiu?

 

Mas… resistiu mesmo? Assim, com força? Fechou as pernas? Bateu no estuprador?

 

Quantos parceiros sexuais já teve antes…?

 

Isso tudo acarreta no fato de que os quase 50.000 estupros notificados por ano no Brasil, na verdade, devem ser algo como 500.000 casos.

 

Isso mesmo. Meio milhão de mulheres estupradas por ano.

 

Uma a cada minuto!

 

Mas, e as condenações? Não são exemplares?

 

Longe disso.

 

Não temos dados exatos no Brasil, mas dificilmente somos mais eficientes que os Estados Unidos no tema. E lá as pesquisas mostram que entre 0,2% e 2,8% dos casos chegam a condenações.

 

Pois é. Se tivermos uma taxa média de 1% e lembrarmos que só há condenações nos casos notificados, estamos falando em 500 condenações por ano. Para 500.000 casos.

 

Isso significa que um estuprador tem aproximadamente 999 chances em 1.000 de não ser preso.

 

Daí porque pouco importa o tamanho da pena ou mesmo se ao chegar na cadeia o estuprador sofrerá sevícias nas mãos dos outros presos. Isso ocorre com apenas 1 em 1.000 estupradores.

 

A chance de se livrar, alta demais.

 

Os obstáculos para fazer um caso chegar ao Judiciário, grandes demais.

 

A sociedade, permissiva demais.

 

E os homens?

 

Preocupados em dizer que não existe cultura do estupro…

 

cultura-do-estupro

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