2016
Mai
23

A eterna crise dos partidos políticos

 

Os partidos políticos estão em crise.

 

Esta frase, ouvida com frequência no Brasil contemporâneo, ecoa em quase todas as democracias desde ao menos a virada para o século XX e o início dos estudos sistemáticos sobre política partidária.

 

Moisey Ostrogorsky, autor russo do clássico La Démocratie et l’Organisation des Partis Politiques, de 1903, dizia que por mais nobres que fossem as intenções de seus fundadores, assim que um partido político se perpetuasse, ele tendia à degeneração.

 

Em linha similar, o sociólogo alemão Robert Michels cunhava, em 1911, a chamada “Lei de Ferro da Oligarquia”. Segundo sua postulação, independentemente de quão democráticas sejam as organizações partidárias em seu nascedouro, elas inevitavelmente caminham rumo à oligarquia.

 

A história do século XX e do início do século XXI poderia bem ser vista como a de um cemitério de partidos políticos. Com as notórias exceções das duplas norte-americana (Democratas/Republicanos), inglesa (Trabalhistas/Conservadores) e alemã (Sociais Democratas/Democratas Cristãos), praticamente todas as demais democracias de relevo viram seus principais partidos desaparecerem ou se tornarem irrelevantes.

 

A Operação Mãos Limpas, em meados da década de 90, sepultou na Itália aquele que havia sido o maior Partido Comunista do ocidente, tendo recebido quase 35% dos votos no pleito de 76; lembrando que a agremiação já trocara à época de nome em prol do Socialismo, depois da derrocada soviética.

 

Na mesma onda a poderosa Democracia Cristã, corrupta até a última almôndega, deu seu último suspiro e viu surgir, como prenúncio de uma nova era de “partidos que não se assumem como tal” o Forza Italia; que em 94 levaria pela primeira vez Berlusconi ao poder.

 

Passadas mais de duas décadas e bem assentada a oligarquia do bunga-bunga, surge o Movimento Cinco Estrelas, de Beppe Grillo. Outro partido “cujo nome não pode ser dito”.

 

Na França a direita já vem se organizando desta forma desde o início do século. Chirac fundou em 2002 a “Union Pour Un Mouvement Populaire” (UMP), rebatizada em 2015 como “Les Républicains” por Sarkozy.

 

A Espanha tem visto ruir o bipartidarismo que se construíra com a queda de Franco em 78. O Partido Popular (PP) e o Partido Socialista Obrero Español (PSOE), que monopolizaram todos os governos desde então, somaram juntos menos de 50% dos votos nas eleições de dezembro de 2015.

 

As estrelas ascendentes na Espanha pós-Puerta del Sol são os movimentos Ciudadanos e Podemos; ambos igualmente refutando a alcunha de “partidos”. Desde então, é bom que se diga, não se chegou a um acordo para formação do novo governo, tendo sido convocadas novas eleições.

 

No Brasil, UDN e PDS foram engolidos pelos militares e o PTB tornou-se irrelevante. ARENA morreu nos estertores do regime, dividindo-se em PSD e PPB, enquanto o MDB… bom, é o PMDB, tendo ainda dado origem ao PSDB neste caminho.

 

O quadro partidário caótico pós-89 viu o nascimento e morte de partidos como o PRN de Collor, o PRONA de Enéas e outros que tais. PPB retirou o B. PL virou PR, depois de abocanhar a grei de Enéas.

 

Do PT nasceram PCO, PSTU e PSOL. Agora, poucos arriscam dizer o que pode vir a nascer de suas cinzas.

 

A última moda, aqui como alhures, são os partidos que fogem da alcunha: Rede, Democratas, Solidariedade, Novo, etc.

 

As bolas da vez, no momento em que se escreve este artigo, são os dois coirmãos no último governo austríaco, os tradicionais partidos Social Democrata (SPÖ) e Democrata Cristão (ÖVP).

 

O primeiro remonta suas raízes ao início do debate socialdemocrata na Europa, ainda em 1874. Governou ininterruptamente o país dos anos 70 até o final do século passado, retomando o poder há cinco anos.

 

O segundo, alcunhado “Partido do Povo Austríaco”, sucedeu o Partido Social Cristão após a Segunda Guerra Mundial e chefiou o governo de 46 até 70, voltando com Schüssel entre 2000 e 2005.

 

Eis que nas últimas eleições ambos conseguiram, somados, perto de 22% dos votos. Nada mais.

 

Os primeiros colocados, que disputaram o segundo turno no último domingo, foram os representantes do ultradireitista FPÖ (Partido da Liberdade) e um economista ligado ao Partido Verde (Grüne).

 

Para quem não tem laivos neonazistas, a boa notícia veio com a apertada derrota do candidato extremista, por míseros 30.000 votos. A vitória de Van der Bellen sobre Hofer não parece provar que a extrema direita saiu como derrotada. Jamais um candidato com credenciais tão próximas do neonazismo chegara tão perto de assumir a Chefia de Governo de um país da Europa Ocidental.

 

Sua derrota, exatamente para outro político sem qualquer identificação com os partidos tradicionais, demonstra a mais não poder o esgotamento do modelo partidário tradicional.

 

Não creio que a superação do modelo passe, necessariamente, pela extinção do partido político como intermediário entre o povo e o acesso às estruturas de poder formal.

 

Pode ser um laivo de conservadorismo deste que vos escreve, mas sigo crendo que o exercício do poder político não comporta grupos multifacetados e pouco coesos, unidos exclusivamente por pautas tópicas ou momentosas.

 

Tampouco tenho as respostas para apontar o que será este novo partido político, cuja missão será superar seus predecessores sem abrir mão de suas características essenciais.

 

De todo modo, os alertas vão se acumulando. Ou bem se repensam as estruturas, funcionamento, finalidades e métodos dos partidos políticos para o cenário da pós-modernidade, ou seremos condenados a pular de movimento voluntarista em movimento voluntarista, passando aqui e acolá pelo Berlusconi da vez.

 

berlusconi

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