2016
Out
25

Toca do Pitaco: A ESTRANHA FIGURA DO ANALISTA POLÍTICO

O analista político é uma figura estranhíssima. Quase sempre tudo sabe sobre comportamento do eleitor; quase nunca sabe antes do resultado eleitoral. É invariavelmente um engenheiro de obra feita, para usar uma expressão bem ao gosto de FHC. Simulam perfeição em diagnósticos, mas são sempre péssimos em prognósticos. Em campanhas eleitorais são todos (eu disse todos) reféns da última pesquisa publicada (eu também, já confesso). Com os números em mãos, lá vai está o analista político a explicar ao pobre diabo do eleitor-leitor-telespectador-ouvinte porque teria havido a subida daquele candidato e a descida do outro. Com uma linguagem generalizante e subjetiva (similar à linguagem de horóscopo) explicam, em detalhes que parecem óbvios, o porquê de tudo. Sabem impressionar.

 

Não raro a eleição prega uma peça em alguns videntes do acontecido. A eleição de 2016 em São Paulo é um bom exemplo. Peguem as análises do início da campanha. Com pesquisas em mãos, os analistas passam a explicar aos neófitos (como são tratados os telespectadores) as óbvias razões pelas quais João Dória tinha escassa chance de ir ao segundo turno. E também já prenunciavam que Hadad ficaria atrás de Marta e Russomano. A explicação é sempre complexa e exaustiva, de forma tal a classificar como estúpido o simples cogitar de outro resultado. São apresentados argumentos científicos. Tão científico quanto feng shui, para citar um bom chiste de Ivan Lessa (que falta faz, aliás, o Ivan Lessa).

 

Nossos analistas nunca contam com surpresas. A vitória de Dória em primeiro turno, com Hadad em segundo, gerou algum constrangimento para os analistas. Por pouco tempo. Não tardou para que nossos ilustres analistas políticos já tivessem outra explicação completamente diferente para elucidar as, também óbvias, razões pelas quais o candidato tucano havia vencido. E Marta e Russomano tinham ficado atrás do Hadad. E assim foram “analisando” (notem as aspas) os demais resultados eleitorais, sempre com o mesmo semblante de quem entende das coisas. É engraçadíssimo.

 

Que me perdoe Paulo Bonavides, mas política não é ciência. E mesmo que seja, o diabo é que tem o homem como variável. Com isso saímos do campo das ciências mais rígidas. O imponderável ocupa um espaço muito grande para autorizar previsões. Há alguns anos Hélio Schwartsman citou na Folha de S. Paulo estudo de Philip Tetlock. Segundo Schwartsman, Tetlock (de quem eu nunca tinha ouvido falar) coletou durante 20 anos cerca de 28.000 previsões acerca da economia e de eventos políticos feitas por 284 experts em diversos campos e de diversas orientações políticas. A conclusão básica é que eles se saíram milimetricamente melhor do que o acaso. Repito: milimetricamente melhor do que o acaso! Noutras palavras: previsão em política é pouco mais do que palpite.

 

Façam vocês mesmos uma pequena experiência ao estilo de Tetlock. Peguem as análises políticas no pós-pesquisa de qualquer eleição municipal deste ano. Escolha os casos de maiores variações nos índices de popularidade. Compare as diferentes análises e projeções dos analistas no período da campanha. Tudo se altera na medida exata do novo cenário revelado pela pesquisa mais recente. A explicação é sempre científica, como se fosse uma cálculo estequiométrico entre diferentes compostos (exemplo de Schwartsman). Nada disso. É pura engenharia de obra feita.

 

Na política o imponderável ocupa um espaço infinitamente maior do que admitem os analistas políticos. E por que, afinal, os tais analistas não confessam logo que previsão em campanha eleitoral é pouco mais do que palpite? Ora, isso significaria diminuir a importância da própria profissão. E é claro que não podemos exigir dos analistas políticos um suicídio profissional coletivo. A propósito, os analistas políticos têm um protocolo silencioso. Jamais criticar previsão equivocada de outro analista. Os videntes também tem um pacto parecido. Esprit de corps, como dizem os franceses.

 

O comportamento humano é caótico. Mínimas alterações numa variável, explica Schwartsman, podem modificar dramaticamente os resultados. Previsões em campanhas eleitorais estão no campo da adivinhação. Ao abordar o passado nossos analistas políticos são perfeitos. Quando quisessem falar sobre prognósticos deveriam usar turbantes de vidente. Seria mais sincero.

 

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Luiz Fernando Casagrande Pereira é advogado, Doutor em Direito pela UFPR e membro fundador da ABRADEP – Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político

 


 

A Toca do Pitaco é a seção de textos de convidados e convidadas do Ponderagens.

 

As opiniões não necessariamente refletem as do blog.

 

Em geral elas refletem, mas sempre tive vontade de poder escrever este tipo de disclaimer.

 

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